segunda-feira, 16 de março de 2015

A neutralidade ontológica do aspecto formal da lógica moderna de Quine

http://www.ufrb.edu.br/griot/images/vol9-n1/10._A_NEUTRALIDADE_ONTOL%C3%93GICA_DO_ASPECTO_FORMAL_DA_L%C3%93GICA_MODERNA_DE_QUINE_-_B%C3%A1rbara_Araldi_Tortato_UC_-_Portugal.pdf


domingo, 2 de novembro de 2014

o (não-)lugar da literatura







(Tese completa:
https://estudogeral.sib.uc.pt/jspui/bitstream/10316/27294/1/barbara%20tortato.pdf )




Deixo aqui uma breve apresentação da dissertação de mestrado que acabo de desenvolver na Universidade de Coimbra chamada Texto e interpretação em Ricoeur: o (não-)lugar da literatura, e, para tanto, não convoco imediatamente Ricoeur, mas sugiro uma reflexão mediada em alguns esforços e desejos por existir inscritos em nossa herança cultural. Afinal, a hipótese de fundo sobre a qual trabalhamos na referida dissertação é justamente a de que a percepção imediata e intuitiva não diz nada além de uma certeza de um si que não chega a uma verdade: é preciso interpretação para que se faça a reflexão e que se chegue a conhecer o mundo e a si mesmo. E esta reflexão precisa de termos mediadores onde se refletir: os quais são, por excelência, obras que testemunham anteriores esforços por existir e que ora podem ser reapropriadas pelo sujeito.
Quem seria Édipo se ninguém lhe dissesse? O que saberíamos da coragem, da honra, se não fosse pela herança cultural que nossa literatura articulou? O objetivo ao redor do qual se encadeou nosso texto foi, justamente, esta ida ao outro, seja ele um símbolo, uma metáfora, uma ação, mas, nos debruçamos principalmente sobre a riqueza exploratória de textos de ficção. Melhor dizendo, não foi a ida que nos ocupou mais, mas esta viagem odisseica, de ida e volta de um Ulisses que retorna à casa irreconhecível.
O problema central, portanto, é o de que nós, seres humanos, somos seres finitos, históricos, relacionais, e tudo o que para nós existe faz parte de uma herança de significados e de relações. Chegamos a mundos sempre já significados. Um ser finito, portanto, é fundamentalmente intérprete, porque precisa se relacionar e se posicionar útil e criticamente diante desta cadeia de significações. Precisa situar-se no mundo.
Os sentidos simbólicos que esta rede desimplica, são construídos, pois, pela vivência, isto é, sendo relacionais são públicos e culturais. Logo, os sentidos simbólicos não são subjetivos nem partem de um sujeito isolado, mas surgem a partir de um movimento que nasce nos próprios símbolos. Se deve pensar a partir do símbolo assim como se deve compreender uma narrativa ao perceber o ser-no-mundo que ela projeta diante de si.
Decifrar, desimplicar, deduzir um sentido a partir de um uso figurado da linguagem suscita em um esclarecimento e ordenação da experiência. Busca-se orientação na narrativa por apropriação de sentido.
Por que na narrativa?
Por dois principais motivos. Primeiro, porque a míngua da linguagem lógica dá espaço para o desenvolvimento de uma linguagem figurada, dentro da qual escolhemos explorar a nova congruência da narrativa. Segundo, pelo distanciamento e modelo interpretativo que o texto é capaz de gerar.
Sobre a linguagem figurada, podemos dizer que existe porque nem todos os sentidos são alcançados pela lógica proposicional. Já sabia O Principezinho que as pessoas grandes nunca vão conhecer bem seus amigos perguntando qual é sua idade e quanto pesa, ao invés de perguntarem pelo som da sua voz e se coleciona borboletas. Muito da experiência humana não se alcança pelo método objetivo de julgamento, mas pelo toque da hermenêutica. Este toque permite que se assumam verdades contextuais e, ao invés de uma verdade definitiva, fala-se em conflito de interpretações. Se a formalidade dos sistemas combinatórios mostra-se insuficiente para esclarecer situações concretas como o erro, a falta, Antígona, e todos os excessos de conflitos que a vida humana experimenta, o discurso figurativo, por meio de sua inovação nos modos de dizer - seja com a predicação da metáfora, seja com a congruência da narrativa - é responsável por contribuir para esta compreensão (do tempo e da ação, marcando, articulando e esclarecendo a experiência propriamente humana). Compreensão de que, à certa altura da vida ou do poema, temos licença para confundir amor e raiva, ou chamar o ciúme de reumatismo.
Porém, se a linguagem precisa se utilizar de símbolos para dar conta da experiência humana, não é com um critério objetivo que se pode compreender esta linguagem, mas, no lugar disto, precisa-se reportar ao simbólico admitindo-se que ele não se esgota em um sentido primeiro e literal.
Justificamos a escolha da narrativa, e principalmente da ficção, também pela sua distanciação. O processo narrativo dá lugar a um texto que “não existe”, um significado que “não existe” se não existe aquele que lê Ulisses, seja Homero, seja Joyce, sejam João e Maria. O texto escrito pode se distanciar do seu discurso original, do seu momento inaugural que seria o limite de um discurso falado, porque, primeiro, o texto tem um sentido, isto é, diz algo significativo, e, segundo, porque se refere a algo além de si mesmo. Esta referência, vai ser papel da leitura construí-la, criá-la. Não estando ligado a uma referência específica, o texto pode se relacionar com qualquer circunstância referencial capaz de compreender sua linguagem. Quando não lido, o texto não tem mundo, é (ou não é?) um não-lugar; vai ganhá-lo - o mundo - no momento em que o leitor dele se apropriar. Vai ganhar uma circunstância, um “em torno”, sua própria barriga da baleia. Esta liberdade de se relacionar com outras referências cria a ideia de quase-mundo da literatura.
Um discurso sem referência permite-se ver por horizontes diferentes, admitindo, simultaneamente, que o sujeito que o vê tem um ponto de vista inevitavelmente restrito, mas, ao mesmo tempo, exclusivamente posicionado. Diferente da intenção da fenomenologia idealista, a fenomenologia hermenêutica admite um sujeito particular, limitado, encarnado, finito, concreto, falível e falivelmente racional, e não um sujeito transcendental. O homem é a alegria do sim na tristeza do finito.
Por que a narrativa marca, articula e esclarece o humano? O si, como se percebeu quando admitiu-se a reflexão mediada, só pode ser localizado através de seus atos e expressões, logo, para se entender o humano, é preciso entender a ação - porque o homem e seu caráter se desenvolvem na ação e, portanto, é ela que vai ser levada ao modelo textual - como quis Aristóteles, sustentando por trás da primazia do drama, a primazia da ação.
E para entender a ação é preciso que se entenda a narrativa. Por quê? Porque o agir é percebido pelo enredo. Porque as coisas e os fatos não são entendidos senão em encadeamentos de histórias.
Esclarecer o humano, portanto, é criar um texto que mimetiza a ação. A mimèsis, a imitação ou representação da ação, portanto, é sempre mimèsis praxeôs. E é imitada criativamente, é agenciada.
A natureza, na teoria aristotélica reapropriada por Ricoeur, é plena de potencialidades, o que vai sustentar que sua forma de representação artística não seja uma técnica que preveja o produto final, mas uma constante dinâmica de exploração destas potencialidades. A imitação aristotélica, portanto, não é uma duplicação, como em Platão, mas uma apropriação criativa de determinado conteúdo. Não é pelo dado que o interesse poético acontece, é pela possibilidade de ter no dado do mundo uma fonte inesgotável de formas de dizer o mesmo sem nunca ser o mesmo; o interesse da poética é ir dormir Gregor Samsa e acordar inseto - ou, o interesse da poética é a metamorfose, é a variação imaginativa.
Se o poeta tem a licença e o dever de agenciar os fatos, se o muthos que configura é uma produção, uma dinâmica, então não tem fim em si mesmo, mas está em função da narrativa. E a narrativa, por sua vez, está em função do esclarecimento da ação. Esclarece porque dá a ela sentido, cria uma concordância sobre o que é heterogêneo no campo da ação. Na narrativa, o autor, ao agenciar os fatos, dá a eles uma posição significativa dentro de um todo já interpretando-os. Mr. Dalloway já diria que ler os sonetos de Shakespeare é escutar pelo buraco da fechadura. Ao enredar a história, o autor está tirando do campo da ação fatos que se desenrolavam em ordem paradigmática e acidental e lhes está enleando sintagmaticamente, para dar um nó, ao final, que sustente uma história significativa, uma totalidade sensata e inteligível. O que faz é dar legibilidade ao tempo e ao que se desenrola no tempo.
A realidade, isto é, o campo da ação, só faz sentido quando mediado linguisticamente. Já balbuciaria Fabiano, o sertanejo ao qual Graciliano Ramos quase que não deu voz, mas onomatopeias. E Fabiano: era bicho ou era homem? Era homem, ele mesmo descobriu... porque ele podia sentir frio mesmo quando fazia calor.
Há uma parte do mundo humanamente vivido que não aparece na visão, na observação, por mais positiva ou positivista que ela seja, mas apenas na linguagem. Por isso o homem concreto obriga a pensar e a trazer a experiência à linguagem: porque é um ser de contraste e não apenas inteligível.
Ao abdicar das referências ostensivas e históricas o autor de ficção não dispõe de uma prova material para servir de mote de controle da interpretação; por este motivo, ao contrário da lógica apofântica ou da historiografia, a literatura chama o leitor a sugerir, ele mesmo, o significado do texto. Eu acordo besouro enquanto Kafka acorda barata. E eu posso jurar que Capitu não traiu Bentinho.
É o ato de leitura que faz a ponte entre a configuração do autor e a refiguração do leitor. A projeção de mundo e a constituição de um horizonte de ação que esta refiguração faz é não só o caminho de retorno do leitor desde o texto até a ação, mas, mais que um retorno, uma fechamento anteriormente referido como odisseico – ou seria abraâmico?, de um viajante que não volta mais?
O modelo da interpretação de textos serve para a interpretação da ação, o que faz da hermenêutica narrativa um modelo para a hermenêutica da condição humana. Em nosso trabalho, foi em função desta hermenêutica geral - que pensa o humano e sua ação como um quase-texto que ao invés de se fixar pela escrita, deixa um rastro - que procuramos olhar para a hermenêutica regional do texto:
Por um lado, o efeito de uma obra pode ser o de gerar novas perguntas ao invés de esclarecer aquelas para as quais o leitor foi buscar orientação.
Por outro, a ação aparece através de seus efeitos: outras ações, testemunhos, textos, arte.
Uma mesma obra pode acarretar interpretações diferentes.
Assim como uma mesma ação gera reações diferentes.
Uma obra pode esclarecer questões postas por obras anteriores, retroativamente.
Uma nova ação pode mudar o que se considerava significar ações anteriores.
Se pudéssemos ler os manuscritos das obras, com os borrões de Eça e de Balzac, saberíamos nós mais sobre seus personagens? Ou seria a Deus que conheceríamos melhor se lêssemos os manuscritos da Bíblia?
Se percebe com o modelo narrativo – com todas as suas distanciações e características próprias de configuração -, que não se pode perceber o que o texto quer dizer; mas se pode notar que o texto diz algo a mim e que, como resposta, eu digo algo a ele.
Chegar cada vez “mais perto” de um critério de interpretação é construir uma tradição de leitura que traz discernimento crítico, que equilibra expectativas e persuasões, estratégias e capacidades simbólicas de significação, coercitiva libertação catártica.
O leitor que se permite interromper, irrealizar na literatura, faz dela não um lugar para se deter, mas um lugar donde partir. Um meio. Irrealizar-se no real suor febril da epidemia Raskolnikov é depurar-se.
O que buscamos nestas leituras? As lições da história são enredos que se repetem, possíveis relações humanas, costumes, valores, significados possíveis, exemplos. Contra-exemplos.
A ficção pode, além disso, servir para submeter ações e juízos a variações imaginativas que, pelas promoções da estética, são capazes de produzir um prazer que, longe de ser desinteressado, é cognitivo. A literatura é o próprio laboratório de Dr. Jekyll, que pode nos fazer descobrir que nem todos os monstros são repugnantes. Mas descobrimos qualquer coisa, nesta interrupção estética, justamente porque nós ficamos em casa enquanto Johnny vai à guerra.
Concluímos, então, que a mimèsis criativa comporta e justifica um duplo direcionamento sobre a ação e, logo, sobre o sujeito: tanto a inspiração na prefiguração para figurar, quanto uma refiguração transformadora. Por um lado, tem-se a poética, que configura; por outro, a ética, que dita e é ditada. Fala-se em ética porque compreender um texto é do nível prático, é aplicação. Interpretação não é mais teórica, é prático-normativa; não é só geral, é fundamental. Afeta diretamente a ação do homem, na sua situação concreta, que é donde parte a reflexão e para onde ela retorna. Na medida em que compreende o mundo, o homem compreende a si: ou seja, nunca se compreende totalmente, mas está sempre em situação de compreensão, está sempre em construção de significados e de si, como bom sujeito hermenêutico que é. Compreender não é mais um modo de conhecer, mas é um modo de ser. Marca-se a condição humana como renovável de significados e disposições. Nota-se que é a ética e a vida compartilhada que justificam o movimento humano de conhecer.
E, se voltamos a narrativas conseguindo lhes dar sempre significados diferentes a cada leitura, ou são os gregos que derramam-nos lá de cima a história de Sísifo, ou é O leite derramado, que “se com a idade a gente dá para repetir certas histórias, não é por demência senil, é porque certas histórias não param de acontecer em nós até o fim da vida”.


sábado, 25 de outubro de 2014

Cativante cativeiro



No livro A vida que ninguém vê, Eliane Brum nos abre os olhos para uma experiência coloquial e tantas vezes supérflua: uma visita a um zoológico. O que se pode absorver sobre a vida num passeio despreocupado como tal? “Há duas maneiras de se visitar um zoológico: com ou sem inocência. A primeira é mais fácil. E a única com satisfação garantida. A outra pode ser uma jornada sombria para dentro do espelho” (p. 54).
O que a autora se propõe a fazer neste ensaio é mostrar nossa percepção sobre quem está atrás das grades da jaula; e não só: quando estamos de frente com a liberdade, qual nossa reação? Nossa visão tão turva sobre nossa própria liberdade permite com que consigamos afastar as amarras que nos prendem ao amálgama social e perceber o que realmente significa ser livre?
No texto um dos primatas habitantes do zoológico tem a oportunidade de libertar-se. O que faz, então? Ele não sabe. Ele está de frente com a liberdade e não a escolhe, talvez porque nem mesmo a veja. “O perturbador desta história real não é a semelhança entre o homem e o macaco. Tudo isso é tão velho quanto Darwin. O aterrador é que, como homem, o macaco virou as costas para a liberdade” (p. 54).
Diante deste quadro inquietante é inevitável que se façam questões sobre o que realmente compreendemos sobre nosso estado de natureza e sobre aquilo que vamos transformando conforme nossa cultura. Muitas vezes nos calejamos de tal forma dentro de um contexto que, de certa forma, continuamos a propagar certos sensos-comuns, como a ideia sobre a possibilidade de agirmos livremente e fazermos nossas escolhas. “Um zoológico serve, principalmente, para que o homem tenha a chance de, diante da jaula do outro, certificar-se de sua liberdade” (p. 54).
O que, entretanto, significa a liberdade dentro das nossas condições cotidianas?  Quando o homem sai do seu passeio ao zoológico e se certifica de que é o ‘outro’ que está atrás das grades, “pode então voltar para o apartamento financiado em 15 anos satisfeito com sua vida. Abrir as grades da porta contente com seu molho de chaves e se aboletar no sofá em frente à TV. Acorda na segunda-feira feliz para o batente. Feliz por ser homem. E por ser livre”.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Eu so(o)u bem menor (experiência no Convento La Tourette)

(Este relato também está videodocumentado aqui: https://www.youtube.com/watch?v=YtZYsl2y5t4&list=UU8HBG4_r9YpoJuN1HTxFdww)


26 de março de 2014 - 3º dia de La Tourette

Aos poucos parece que eu vou sumindo por trás das janelas dos olhos. Eu enquanto vontades, onde estou? Aos poucos parece que vou-me tornando um fluxo de consciência que não se liga ao mundo nem em sua dimensão temporal. Quanto tempo já passou? Quanto eu já passou no tempo? Talvez seja quase um capricho sumir por trás das janelas dos olhos quando se tem janelas tão maravilhosas para olhar pra fora.



          Pode não parecer, a princípio, mas este é um post sobre um rolo de fita adesiva. Eu tinha direito a apenas dez quilos de bagagem para embarcar no avião a Lyon. Sendo assim, levei apenas um rolo. Sai-se do “pequeno principado” do aeroporto de Lyon facilmente de metrô até a estação que leva a Éveux e lá arranja-se carona com qualquer pessoa debaixo do túnel escuro de pedra que mal deixa ver a placa simples e funcional que corresponde ao COUVENT DE SAINTE-MARIE DE LA TOURETTE. Meu medo era não conseguir abrir a porta do Convento. Tenho um problema com portas, e me iam deixar a chave debaixo do tapete porque eu chegaria num horário inapropriado para ser recebida, porque nunca é o horário apropriado para um bárbaro invadir, é? Por sorte havia alguém lá, me esperando, que me deu a chave em mãos e me mostrou onde era o quarto, dizendo que voltaria pela manhã para servir o café, que o refeitório era naquela direção, descendo estas escadas, dobrando à direita, termina o corredor, a porta preta (“Refeitoire. Noir. Lembre-se.”), e que eu era a única hóspede da noite. Quando, depois destes três minutos de pura informação freneticamente despejada em um francês sulista fiquei sozinha tentando processar a informação de que passaria as próximas horas sozinha na segunda mais importante obra da arquitetura moderna francesa e os próximos dias sozinha com meus pecados, me dirigi sozinha ao meu quarto: a chave emperrou. Isso voltou a acontecer apenas algumas vezes nos quinze dias que se seguiram.
          Sobre a fita adesiva, já explico; antes digo que a ideia de retirar-me foi de um amigo arquiteto que vibrava com a descrição do que, a princípio, pensei ser do Convento de la Tourette, mas aos poucos fui percebendo que ele nunca me descreveu o lugar, apenas as experiências localizadas lá e que, portanto, foi honesto comigo e consigo, diferente de outras tentativas de aproximação com a arquitetura moderna que fiz, sobre as quais logo falo. Tanto quanto demorei para perceber isto, demorei-me no medo de chegar lá e descobrir ser arquiteturalmente frígida. Uma menoridade kantiana só que pra arquitetura. Cheguei lá com medo. Da porta e de não entender e não conseguir viver aquilo que me haviam descrito. Quase que um pavor moral. O que construí em pensamento tentando prever o edifício me parecia um emaranhado de conceitos que se esconderiam de mim, como às vezes acontece quando vou a um museu de arte contemporânea, por exemplo, e deparo com obras para as quais dedico uma falsa capacidade de encenação: parar bem na frente, apertar os olhos sem parecer nervosa, dar dois passos lentos para trás, inclinar a cabeça e sacudi-la levemente de forma afirmativa. Assim “entendo” a contemporaneidade. Mas não podia sacudir a cabeça por duas semanas seguidas, precisava ser sincera comigo mesma e, além disso, estava lá para me concentrar em minha dissertação de mestrado, não podia gastar tempo dando dois passos pra trás diante de cada janela emoldurada.
          O que concluí, ao final, e desculpem colocar o final no começo, mas façamos um esforço plástico de hermenêutica, é que minhas aulas de Arquitetura e Filosofia serviram para pouco e que minhas constantes críticas a Le Corbusier, eram de cunho tão teórico quanto Deus (théo) está na teoria. Ideal, quero dizer. Metafísico, quero dizer.
          O que eu sabia do arquiteto francês era que construía casas desapegadas do chão e o que meu professor regurgitou em mim sobre isso foi a sentença de morte: o edifício que distancia-se do chão dá a sensação de reintegração com a natureza. Quando ele me disse isto, construí a imagem do manual que ele devia ter engolido pela garganta estreita, apertei os olhos sem parecer nervosa, inclinei a cabeça e sacudi-a levemente de forma afirmativa. Ainda assim, anotei, por medo de não notar. Lembrei deste coitado quando estava na biblioteca do Convento com minha coluna perfeitamente estendida numa cadeira aparentemente desconfortável por ter uns ângulos retos demais e ser toda de madeira. A melhor cadeira que já sentei. Só depois de dias notei que eu ia à biblioteca para, obviamente, trocar um pouco os ares da minha cela, mas, também, porque eu podia perder meus olhos e pensamentos com todos aqueles passarinhos que mergulhavam pelo vão central do edifício e que quando estavam perto do chão impulsionavam-se outra vez para o alto quase que limando suas barrigas arredondadas em voos rasantes que terminavam com uma saída triunfal que passava por baixo e se libertava pelo outro lado do prédio. Aquilo era bonito de ver. Gostaria que meu professor tivesse visto aquilo ao invés de ter visto uma lista de emoções descritas em ordem alfabética.



           Além disto, eu tinha um mínimo de noção do que era o espírito pós-guerras mundiais e a máquina expelidora de novos burgueses que se fabricou com a revolução industrial e que estava transformando as condições e as necessidades do homem moderno na época do Le Corbusier. O espírito le corbusiano percebia esta transformação de uma forma para a qual eu apenas sacudia a cabeça sem nem mesmo fingir não estar nervosa. Sempre fui mais a favor do kitsch do que da máquina de morar, aliás. Enquanto ele toma a óbvia posição de que a arquitetura, para cumprir sua função de subsidiar as necessidades do homem, deve se alinhar ao amálgama de mudanças modeladoras do mundo moderno, eu sempre quis dizer a ele: eu amo o excesso! Mas pra acompanhar o homem moderno, a casa moderna não veste luxo, não, meu professor disse que o Le Corbusier disse. Transforma-se naturalmente na casa-instrumento, na máquina de morar. E se a intenção para a arquitetura é ter uma planta traçada por órgãos vivos, com disposições pensadas a partir das suas relações com o conjunto - algo que emocione pela grandeza da intenção -: não se emociona o homem moderno com uma intenção pensada para os “países dos príncipes, dos cardeais, dos doges ou dos reis”.
          Já que os instrumentos do homem marcam as etapas do desenvolvimento da civilização, dos acúmulos de aperfeiçoamento, a casa, como primeiro instrumento forjado pelo homem graças ao seu instinto primordial de se abrigar, deve, do mesmo modo, deixar pra trás a forma obsoleta de considerar a arquitetura, percebendo-se neste novo espaço e novas necessidades. Le Corbusier achava que, nesta época (o Convento é considerado sua última grande obra e é inaugurado em 1957), a função convencional do engenheiro vinha sendo o que as novas diretrizes apontavam para o arquiteto mas este se negava ver. A ideia de beleza do homem moderno se aproxima daquela que o engenheiro, através do cálculo e da lei da economia, põe em prática. Os desejos visuais não são mais os mesmos, mas as casas são: problema maior. Óbvio que eu não queria aceitar que meus olhos gostavam da economia, apesar de ser uma grande sovina, tanto quanto minha bunda gostava daquela cadeira de madeira. Mas, o professor anotou no quadro que o homem pós-revolução industrial tem suas necessidades sensíveis equivalentes à forma de pensar do engenheiro: útil e ativa. Não sei como ele achava que eu podia entender isso sem a experiência da bunda. Aliás, se ele fosse lá ver o Convento, ia saber à partida, graças aos manuais, a cruz na fachada do prédio que eu só lá pelo quarto dia consegui notar, tamanha incorporação nos elementos que já faziam parte do organismo.

          
          O mesmo professor fez-me anotar no caderno que, no que diz respeito ao volume, o prazer estético é instintivo: seja para a criança, o selvagem e ou o metafísico, a beleza se encontra na forma primária, porque esta se revela sem ambiguidade para seus olhos. Disse-me também que, considerando que “as formas primárias são as belas formas”, a geometria e a matemática do engenheiro satisfazem muito mais do que a ostentação do arquiteto. O defeito do arquiteto é não realizar mais formas simples, isto é, aquelas que se leem claramente. Os floreios da arquitetura devem ter o mesmo fim daqueles da narrativa da arte moderna: desbastados até se tornarem o mais limpo possível.
          Respondo-o dizendo que bastava ver que o La Tourette é pintado com cores primárias, e gostaria também de fazê-lo para a guia que levou um grupo de visitantes “olhar” o Convento um dia que eu estava lá. Devia ser prima do professor. Ouvi: “não há hipóteses para a utilização de cores primárias como únicos elementos de decoração do prédio”. E passaram para o cômodo seguinte. Sim, gente. Foi o que eu ouvi. Gente? Melhor do que ser surda, eu sei. Pelo menos eu não era cega. Como assim que não há hipóteses para o uso das cores primárias em um prédio que é ele todo primário, que não deixa espaço para o excesso, que é feito sob a medida do homem?
          (Sobre isso me falaram que ia me fazer sentir acolhida pelo prédio. E supostamente a justificativa para tanto era que ele tinha em suas escalas a medida do homem vitruviano. Já aí pensei: pronto, não vou entender nada. Eu tenho só um metro e sessenta e cinco (seis, nos meus melhores dias). Não tenho tamanho pra me sentir acolhida por um homem vitruviano, principalmente porque ele é medonho com suas oito pernas e braços e aquele cabelo horrível. A cela na qual vivi nestes quinze dias media exato um metro e oitenta e três. Eu sou bem menor, bem o menor, o primário, o essencial, a medida menor e humana como referência para todas as coisas, foi o que descobri. Mas não ao modo sofístico e relativista. Pelo contrário, ao modo humanista - que dá voz à mim e a si como confirmação de que há o edifício porque há o homem, de que há a mordida porque há o remorso, que eu mesma inventei. Falar e viver sob e sobre as condições primárias, é falar e viver em La Tourette. E as condições primárias são as condições mais reveladoras do humano. Não para aqueles que não entendem o porquê das cores primárias.) - Juram?
          Juram que diante de um prédio que fala das necessidades fundamentais, que é dividido em alas funcionais, em andares correspondentes a cada atividade diária, com aproveitamento de luz natural, com janelas que ressoam tons musicais conforme a disposição, com corredores que ressoam todo o tipo de ruído e promovem a vida do fazer silêncio e não do viver o silêncio – juram que vocês não conseguem encontrar nos livros hipóteses para o uso das cores primárias? O fato de ser pintado em cores primárias devia já explicar em si o motivo de ser pintado em cores primárias.
          Nos últimos dias, quando percebi que já havia tempo que tinha entendido que não precisava pensar sobre o edifício, notei que, sim, que eu era só uma pecadora, sou uma menor, kantiana ou não. E que bom era isso. Já no Eclesiastes diz-se que o homem nasceu torto e vai morrer torto; por que não lidar com esta situação? Um torto que se mede. Percebi que, sim, a arquitetura funcional me acolhia como pecadora e portadora dos meus exatos excessos e de outras tantas incoerências necessárias e oxímoros desarmônicos. Que bom era ser acolhida apesar disso. Ir reequilibrando-me com aquilo que há para reequilibrar e deixar as labirintites onde estavam, sumindo um pouco enquanto um eu pessoal e reaparecendo enquanto humano. Foi como tirar a casca de uma cebola, se é que me perdoam tantos exemplos desconexos. Sem notar podemos ir tirando mais uma e mais uma das camadas e continuar tendo uma cebola. Fui-me desapegando de tantas cascas e isso aconteceu no contato com o cimento bruto que de bruto não tinha nada. As paredes sem reboco não me machucavam quando eu insistia em passar a mão pra sentir a textura neste vício tátil que tenho. O quadradinho que era minha janela não me fazia sentir claustrofóbica. Pelo contrário, as paredes sem reboco me mostraram, depois de gastar um rolo inteiro de fita adesiva para tentar colar os meus mapas conceituais sobre elas, que eu não precisava dos meus mapas conceituais. A janela restrita me fez sentir que só eu é que podia ver aquela parte do mundo daquela perspectiva e que era linda. Eu estava na ala leste.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Se um não quer, dois não filosofam: a ação de ouvir e a reação de falar


(Vou falar aqui sobre o funcionamento da sala de aula e da relação professor-educando que é pra ti não levar a mal que estou falando de ti.). (Mas tu sabe que estou falando.). A proposta de trabalhar filosofia com crianças e adolescentes em fase escolar é encantadora. (Notar-se-á, no decorrer da minha fala contigo, que entende-se "filosofia" como um pensamento crítico, apesar de uma provável redução que este termo gera à capacidade de abrangência da filosofia. Refere-se a "uma vida bem vivida", como queria Sócrates/Platão). É um desafio tanto ao professor quanto aos educandos*. Ambos os lados desta relação precisam entrar num equilíbrio de objetivos, pois se um não quer, dois não filosofam. Envolver os alunos nesta atmosfera filosófica é, pois, importante, ao mesmo tempo em que complexo. (Eu ia dizer "inquestionavelmente complexo", mas nada é inquestionável neste Blog. Vulgo Ônfalo).
 Em primeiro lugar, a própria definição escorregadia de filosofia é uma barreira a ser superada a fim de que não se transforme o momento de aula em discursos vazios e até mesmo manipuladores. (Tuas convicções e decisões, leitor). Além disso, provocar um aluno a ponto de que ele se sinta capaz de interagir como um construtor de conceitos e de conhecimento é uma tarefa que envolve mais do que a vontade do aluno. (Olhar para o lado, leitor). Esta tarefa envolve uma preparação por parte do professor, algo que não abrange apenas conteúdos filosóficos, ou abstrações conceituais, ou mesmo dezenas de referências teóricas. Este algo a mais é dificilmente descritível. É quase que um exercício moral. O exercício de abrir-se para o inesperado, para o novo – de estar aberto para ouvir o oposto do que se pensa e de considerá-lo. Ser professor de filosofia significa dispor-se a encaminhar-se diariamente a uma sala de aula e considerar o que os outros têm a dizer. (E por que na vida de cada um devia de ser diferente?). 
Filosofar é uma atividade que inclui a muitas vezes esquecida ação de ouvir. Pois ouvir também é uma ação, não apenas uma reação. É uma ação que envolve uma maleabilidade por parte de quem a pratica. Ouvir é um ato moral. É deixar suas próprias crenças, seus próprios pensamentos e ideais de lado momentaneamente, para que as crenças, pensamentos e para que possam ser ponderados. Apenas na simbiose de pensamentos e de objetivos se faz filosofia – se faz em conjunto. (Se faz con-vivência na vida em conjunto.). As ideias podem ser contrárias, mas a intenção de debatê-las deve ser comum.
Fazer este complexo exercício em uma sala de aula torna-se um desafio ainda maior quando a mesma está ocupada por crianças ou adolescentes. (Pueris habitantes da vizinhança). Torna-se um ato duplamente moral: tanto o de ouvir quanto o de ensinar ouvir. Render sensível às crianças e adolescentes em formação a necessidade de "auscultar" cuidadosamente cada uma das “palpitações” daquele que está sendo examinado é um empenho deveras significativo no desenvolvimento de um futuro cidadão. A criação de um ambiente de estudos democrático, construtivista e filosófico, deste modo, propicia instrumentos indispensáveis para que a distinção dos ecos da moralidade seja feita. E junto a ela considera-se não apenas a (re)ação do ouvir, mas o direito de discordar, o dever de demonstrar, a necessidade de reconsiderar, a possibilidade de ressignificar. Todas atreladas estas características impedem a surdez ociosa e acomodada, dando forma a um ambiente dominado pelo zunido filosófico; um ambiente que atrai o professor a descobrir novas ondas sonoras dia após dia e convida os alunos a afinarem seus próprios ouvidos.
(Espelho, espelho meu... que que eu tava falando mesmo?)



* Vou aderir, contra meus hábitos, ao que há de politicamente correto no termo "educando" em detrimento do termo "aluno", o qual tem uma origem detestável: a = negação, lumnus = luz. Aluno = sem luz.

sábado, 20 de setembro de 2014

Como é possível que a linguagem remeta à realidade? Witt.

Devido ao grande número de acessos do último post vou postar algo absolutamente entediante desta vez, que é para meu ego voltar para o lugar. Brincadeira. Não tem como se entediar diante de nomes como Kierkegaard ou Nietzsche, tão bons de soletrar. O moço da vez chama-se Wittgenstein. Witt para os íntimos (ou Kierk, ou Niti). Witt é mais bipolar que mulher de dieta. HA-HA. Vamos falar do primeiro Witt - aquele que construiu um lindo sistema para pensar a linguagem para que o segundo Witt destruísse.
O que Witt, na obra Tratactus logico-philosophicus, diz é que quando estabelecemos qualquer relação lingüística estamos, o tempo todo, fazendo referências e alusões. Tal fato acontece porque ao nos comunicarmos estamos relatando o mundo que por nós é experimentado. É de se admirar, entretanto, como esse relato e essa referência podem satisfazer a necessidade de expressar a realidade. A questão principal está na ocorrência de que podemos representar precisamente estas duas estruturas distintas: a realidade e a linguagem. A possibilidade de que sejam compreensíveis e afins uma linguagem - na sua forma mais abstrata - e um mundo - na sua permanente ocorrência - admite um espanto inicial, impulsionador de uma observação mais precisa.

Estas estruturas precisam ter algo em comum para que se refiram mutuamente sem entrarem em contradição. Ao procedermos de modo a procurar este ponto essencial entre estas duas estruturas, percebemos que o que aciona esta possibilidade se encontra na fundamentação que compartilham.
O mundo é um contexto complexo e composto formado por fatos. Um fato, por sua vez, é também uma totalidade composta; desta vez, formada e estabelecida por coisas. As coisas existem. Ao se combinarem em conformidade com as regras lógicas, as coisas dão forma aos fatos. Os fatos, acontecem. Ao acontecerem, os fatos fazem o mundo. A ocorrência dos fatos é pré-determinada pelas coisas, pois estas, seguindo as limitações da lógica, apresentam em sua existência todas as possibilidades de combinações a serem estabelecidas na resolução do mundo.
Seria possível saber todas as combinações plausíveis no mundo, se soubéssemos as coisas, já que elas são os fatores pré-determinantes para que as combinações aconteçam. Às coisas são intrínsecas as maneiras como podem mutuamente se concordar, ou seja, as possibilidades de combinação. Ao se estar ciente de uma coisa, sabe-se tudo o que é possível dela derivar, pois nela própria se encontra esta chave de possibilidades.
O mundo, como já vimos, é formado por fatos, isto é, por aquilo que acontece. As coisas acontecem apenas quando deixam de ser coisas e passam a ser fatos, portanto, as coisas simples, determinantes de todos os fatos, não fazem parte do mundo como tal. Passam a fazer parte do mundo apenas na sua conciliação mútua. Nesse caso, mesmo que exista a oportunidade de se saber todas as possibilidades do mundo apenas conhecendo as coisas, para nós, tal feito é impraticável, pois nós, enquanto tais, somos fatos e fazemos parte do mundo, enquanto as coisas, que nos apresentariam esta resposta, não participam desta mesma realidade, pois, ao ultrapassarem o limite dos fatos e das coisas, deixam de ser substâncias simples e se combinam reciprocamente para passarem a acontecer. Não podemos contemplar as coisas, então, em sua forma simples.
Pode-se caracterizar as coisas no ato de se combinarem. A necessidade recíproca das coisas de se combinarem para acontecer e passar a fazer parte do mundo pode ser chamada de propriedade externa. “Externa” porque é a dependência natural para tornar-se ativa no mundo. Esta dependência, entretanto, é absolutamente superada quando se fala de existência particular, pois uma coisa não depende da existência ou não existência de outra. Há ainda a propriedade interna das coisas, a qual caracteriza e singulariza as coisas entre si, pois expõe todo o leque de oportunidades de vir a ser de cada uma delas, ou seja, esta propriedade interna, decide/determina com qual outra coisa a primeira pode se combinar para tornar-se fato.
As primeiras formas combinadas de coisas são os fatos atômicos, os quais não são divisíveis em outros fatos, pois são uma estrutura mínima de coisas. A tendência que as coisas tem para se combinar umas com as outras, conduz tais estruturas mínimas a gerarem fatos cada vez mais complexos e, desta maneira, formar o mundo.
Assim como as coisas antes de se combinarem não fazem parte do mundo, também na linguagem isto acontece. Enquanto singularmente previstos, os alicerces contidos na linguagem são os nomes, e estes se sustentam fora do limite do mundo. A combinação destes nomes gera as proposições que usamos na nossa linguagem.
Se partimos do pressuposto de que o mundo e a linguagem são análogos, já que podemos nos referir a um deles através do outro, devemos encontrar um movimento especular nas duas dimensões e confirmar esta equivalência.
Nomes estão para proposições assim como coisas estão para fatos. O espelho não explica uma imagem, reconhece-a; e é como a equivalência entre as duas estruturas vai se tornar compreensível: através do reconhecimento fundamental mútuo. Os componentes do mundo encontram correspondência fundamental e concreta nos elementos da linguagem. O que é possível de formar linguagem diante das possibilidades de combinação dos nomes também é possível no mundo através da combinação de coisas e na constituição de fatos.
A analogia da linguagem mostra (reflete como um espelho) uma forma lógica comum para as duas estruturas. Há entre linguagem e mundo algo em comum que opera antes da experiência.
Essa operação se dá no momento do significado. É necessário chegar à ocasião em que um nome se ligue a uma coisa, e essa ocasião é o momento do significado. É segundo a teoria geral do significado que o mundo e a linguagem se ligam. Nomes significam coisas. Coisas são substituídas por nomes. Para compreender o significado de um nome, preciso de uma âncora no mundo, algo que me tire da linguagem e me remeta ao que seja seu análogo e lhe represente numa estrutura diferente, já que não podemos procurar seu fundamento na sua própria natureza, ou cairíamos em um círculo vicioso.
Como é possível a linguagem que utilizamos corresponder ao mundo que experimentamos? Como é possível que a linguagem remeta à realidade? A condição análoga na fundamentação de suas estruturas, sua forma lógica; seu espaço, é o mesmo. Mesmo que os elementos do mundo e da linguagem se difiram entre si – coisas e nomes, fatos e proposições –, a forma lógica que os estrutura e os torna inteligíveis é a mesma, e, portanto, mundo e linguagem se interconectam e se possibilitam reciprocamente.
O que o primeiro Witt não notou é que não dava pra falar sobre o Amor com esse sistema. Vide post anterior. 

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Não há Amor



          Faz uns tempos que venho procurando o amor por toda a parte. Mas não calha de ser um motivo romântico senão acadêmico; pois acontece que me chegou em mãos a proposta de fundamentar filosoficamente alguma tese, hipótese ou lorota, sobre o amor através do cinema. Assim, descabidamente sem limites, me chegou a proposta. E toda esta liberdade me foi um dos maiores desamores intelectuais.
         Como não podia deixar de ser, comecei a me perguntar onde se encontrava o amor, pensando, ingenuamente, que o encontraria facilmente em filmes que já tinha assistido ou que passaram pelo meu ecrã neste meio tempo, afinal, todo mundo vive falando seu nome em vão. Assisti a muitos. Procurei listas de filmes para relembrar aos que eu já tinha assistido. Pedi indicações. Onde estava o amor, nestas pencas de filmes que abarrotam prateleiras, HDs e filas de cinema? Quanto mais eu tentava olhar para ele, mais me escapava. Procurei nos platônicos, procurei nas árvores genealógicas, nos contratos sociais e nas camaradagens, nos beijos, nas juras, na saúde e na doença, e até quase caí nos braços das meretrizes. Às vezes até parecia que eu o tinha avistado com o rabo do olho, mas não.. nada daquilo era o amor. 
         Então se passou que comecei pensar que o problema era comigo, e eu nem sequer sabia o que era o amor. Pus-me a refletir, então, como era de se esperar, no que é esta coisa. Pois não há como procurá-la nos ecrãs sem saber a que é que verdadeiramente se refere. E por ‘verdadeiramente’ e por ‘referência’ não digo que se precise já ter amado, colocando o verbo em prática, para saber o que é o amor. Digo, ao invés, que não se pode saber se já se amou, pragmaticamente, se não se sabe o que é que se chama amor!
         Pois, foi o caso de muitas teses e hipóteses me passarem pela cabeça para criar um entendimento sobre esta coisa que é o amor. Todas lorotas. Todas lorotas porque a palavra amor se tornou acostu(a)mada. Usada e abusada. Ao chamar tanta coisa de amor, acaba-se por dizer que ‘tudo é amor’, então acaba por nada sê-lo. Mas, se para tantos, há tanto amor pululando por aí, como é que eu não conseguia encontrá-lo para amarrá-lo a um despretensioso ensaio filosófico? Precisei de algo óbvio o suficiente, que pululasse quase pulando num grande e bonito cartaz na esquina da praça, para que eu visse – uns dizem que é assim que se lhe encontra, quando menos se espera: Amor, um filme francês do ano de 2012, com roteiro e direção de Michael Haneke. 
         O que ora me aflige, é que, no final das contas, encontrei o amor ao desencontrá-lo. Descobrindo que.. não.. não há amor; desamorreu.
         Meu primeiro contato fez achar que foi um filme de uma crueldade tamanha com o espectador. Um filme desesperador. Que mostra, na primeira cena, o que vai ser o seu fim. E cria, desgraçadamente, uma metáfora da vida – ou da morte?. “Sejam bem-vindos ao Teatro dos Campos Elíseos” – ou, sejam bem-vindos ao Hades?. Estamos todos ali, nós e os personagens, sentados na plateia, e olhamos já sabendo o que vai acontecer, mas não ousamos sair da poltrona, hipnotizados pelos meios que levarão ao já esperado fim. Nada nos livra do susto da vida. Nada, nem o tal “amor”. Já diriam os românticos morrendo de tuberculose no século XVIII. 
         Para além deste chá de realidade que tomamos, junto com ‘a’ tomada de ar, que vai durar até o fim do filme, há a amargura?, angústia?, aflição?, tristeza?, desgosto?, agonia?, do desenrolar da história. Numa estética calma e tranquila, muito clara, cheia de espaços a serem preenchidos pela imaginação do espectador. Desesperadora.
         O filme Amor, nestas condições, desconstruiu, para mim, a palavra – e o afeto? Qual o quê!.  Tu, que achou o filme a maior expressão de amor que, ultimamente, refletiu na tua retina atenta, e fê-la debulhar em quentes lágrimas amargas, me julgas neste exato momento. (“Estás a brincar comigo? A pregar-me uma peça?” tu te perguntas, bem como foi o caso de Georges perguntar a Anne em seu primeiro ataque, na mesa do café da manhã. “Pare de brincar, não tem graça”. Tu és a minha Anne, leitor, e te dou o direito de solicitar, como ela “Por favor, me explique o que se passa”). 
         Vamos com calma, pois não digo o contrário de ti, que concorda com o título: apenas te pergunto se tu estás realmente vendo bem, com estas retinas cansadas, viciadas?, usadas?, o que se chama “amor”. É uma questão de ampliar a palavra – ou reduzi-la?.
         Vejamos: proponho que se pense na condição de existência de cada um de nós, seres humanos. Apelemos para Descartes, de modo bastante inadequado – e o que até agora não foi?! – para realizarmos mais facilmente a experiência. Penso, logo existo. Eu. Um eu que se realiza internamente, seja lá como quisermos chamar esta coisa que nos faz pensar, seja lá tudo que está por trás desta coisa que nos aparece como pensamento. Eu. Eu penso. Eu existo. Eu experimento o mundo no momento em que transformo coisas do mundo em pensamento, seja lá como for que isso aconteça. Eu faço isso. Tu fazes isso?
         Não sei.
         Não estou desconfiando da tua capacidade intelectual, querido leitor. Só estou desconfiando de ti. Eu penso e eu existo. O que há fora disto, eu não sei como funciona, só sei as coisas que transformo em pensamento. O que há fora disto?
         O que proponho pensar quando proponho pensar a condição de existência antes de pensar o amor é que não há relação senão com alteridades. E mais: senão com alteridades absolutas. “Absoluto”, de ab solus: separado. Um outro absoluto é um outro separado. Não é o ‘meu’ outro. É um estrangeiro absoluto. (“Por que nunca me contaste?”, pergunta Anne ao seu companheiro de há dezenas de anos: “Há muitas histórias que nunca te contei”. E, por mais que contasse, somos seres analógicos, nós, humanos: não recebemos a mensagem tal qual ela saiu do emissor. Nem o emissor é capaz de passá-la sem falhas. Muitas vezes esta nem chega ser uma intenção.). 
         “Às vezes tu és um monstro”, diz Anne a Georges - pensas tu de mim, não é, leitor?. Mas Georges, a certa altura, pergunta, convicto, ingênuo: “O que você faria se estivesse no meu lugar?” e Anne, esta sua velha desconhecida, esta sua sempre separada, responde: “Não sei”.
         Note-se que a alteridade absoluta é a própria condição de qualquer relação. É a condição porque se não fosse a alteridade, não haveria relação – seria um eu comigo, um bloco do eu sozinho; e, ao mesmo tempo, é aquilo que impede a relação, porque não se tem verdadeiro acesso ao outro. Ambos os seres de uma relação são singularidades absolutas. 
         Agora é que te pergunto: é possível amor nestas condições? Sugiro que ama-se sozinho se estas condições. Sempre. Ama-se sozinho, como Georges. 
         Não há nada além da ilusão amorosa de um eu que ama sozinho. Um narciso. E quando nos chega Eco, não nos fala nada de novo: nós. Por isso é que sugiro que, para desconstruir esta palavra acostumada em vazios floreios e máscaras mal pintadas que é o amor, é preciso pensá-lo para além da utópica completude. Para além da ilusão do mito do andrógeno. 
         Veja-se Georges e Anne. Uma tentativa de ir ao encontro da unidade, como vão todos os amores, vãos. Até que a ideia, já desgastada - pela velhice?, pela falibilidade da razão senil?, ou pela racionalidade da maturidade? – de alcançar a unidade despedaça-se na romântica superfície que é uma mesa de cirurgia. Que nos joga a cruel realidade de sermos não aquilo que sonha quem nos ama, não floreios, mas um conjunto de reações bioquímicas que dão vida a um corpo físico e que habita o mundo de entidades ab-solutas. É.. o amor não poupa-nos do susto da vida. Veja-se Georges e Anne; veja-se Joãozinho e Mariazinha; veja-se qualquer um. Ou melhor: tente ver; pois não há nada a ver a não ser um espectro. A única relação possível entre alteridades é a espectral. Acaba-se, aqui, com a ideia de que “nós dois somos um”; desamarra-se. Acaba-se, aqui, com o “amor”.
         Não quero dizer que Anne não o ame de volta. Ou que Mariazinha não ame Joãozinho. Elas podem amar – ou amargar?. Mas não se ama junto, não se ama o mesmo, nem sequer se sabe o que se está amando. Desconstrói-se o amor a dois. Nem chega ser o caso de ser necessário apelar para o esquecimento, o estado senil, a falta de identidade e de identificação nos quais se encontra Anne. Não foi só nesta condição em que ela se tornou “irreconhecível”, como sublinha Eva. Nunca conheceu-se Anne. Nunca amou-se Anne. (“Quando entrei lembrei-me de quando ouvia vocês fazendo amor, quando era pequena. Trazia-me tranquilidade. Fazia-me sentir que se amavam, e que ficaríamos juntos para sempre”. Juntos quem, Eva? Você nunca compartilhou este paraíso, Eva. Você esteve sempre só.)
         Sempre ama-se um espectro, e, assim sendo, só se pode falar do amor na distância: não se alcança a presença. Quando diz-se amar, é porque ama-se o mistério da alteridade. Não o outro em si, porque este é inatingível. Amo um espectro desconhecido que nunca se mostra. A constante promessa. 
         Assim, o que se chama amor não passa de um desejo não realizado de apropriação. E tu me perguntas, leitor, o que é que se pode fazer para mudar esta condição? E eu te respondo, como Georges a Eva: “Para ser franco, não podes fazer nada”. E se te interessa saber se, apesar disso, acho, como Anne, “bonita a vida, tão comprida”, te respondo apenas: “O chá não está muito quente, mas aconchega”.



(Há coisas neste texto que se inspiram em Derrida. Espero que nenhum derridiano leia isto.)